Terapia animal

Depois de ajudar doentes de depressão e câncer, cães agora são usados no tratamento de Alzheimer.

Maíra Termero

        Há alguns anos cães-terapeutas vêm sendo levados a hospitais, asilos ou à casa de doentes em todo o mundo para auxiliar no tratamento de males como depressão e câncer. No Brasil, o uso de animais no tratamento de Alzheimer é novidade. Mas um estudo em andamento no Hospital Universitário de Brasília (HUB) desde março, sob a coordenação das veterinárias Damaris Rizzo, Esther Odenthal e Renata Guina, apresenta resultados animadores. O golden retriever Barney e o bernês Ventus, que receberam treinamento especial, vão semanalmente ao Centro de Referência para os Portadores da Doença de Alzheimer para brincar com bola, dar e ganhar carinho. Cada grupo de dez idosos recebe a visita canina durante oito semanas.

        Esse tipo de terapia, de início relegada à prateleira das “alternativas”, já ocupa seu lugar na Ciência. A ONG americana Delta Society, dedicada à terapia animal assistida, reúne em seu site mais de cem estudos sobre o assunto. O mais significativo foi publicado em 1995, no American Journal of Cardiology, e prova que o convívio com animais ajuda a controlar o stress, diminui a pressão arterial e reduz os riscos de problemas cardiovasculares. Outras nove pesquisas tratam do mal de Alzheimer. A mais recente, de dezembro de 2003, foi feita nos Estados Unidos com 15 portadores da doença. Eles tiveram melhoras expressivas na interação social e ficaram menos agitados.

        Em Brasília, as sessões do tratamento começam com uma conversa com as pesquisadoras. Elas perguntam aos pacientes detalhes do encontro anterior – já que a perda da memória recente é o sintoma mais marcante dessa doença degenerativa, que não tem cura. “Eles sempre dizem que não se lembram de mim, mas, dos cachorros, guardam até o nome”, diz Renata.

        O ato de jogar uma bola para Barney pegar já é uma atividade física para os idosos. Escovar os pêlos de Ventus ajuda na fisioterapia. O estudo só será concluído em março do ano que vem, mas os pacientes celebram desde já pequenas vitórias contra a doença. “Meu marido era um militar muito ativo que se isolou depois do diagnóstico. Agora ele acorda arrumado para vir a terapia e quer levar o Barney para casa”, conta Isa Alves, mulher de Arnaldo de Oliveira, de 75 anos. “No caso dessa doença em que a tristeza é uma marca, os cães são uma alegria grande”, diz o geriatra Renato Maia, da HUB.

        Apesar dos benefícios observados, a pet terapia ainda enfrenta resistência no meio médico. A dificuldade maior é demonstrar que os cães podem entrar num hospital sem transmitir doenças. Uma saída foi apresentada pelos japoneses em janeiro: eles começaram a usar robôs no lugar de animais. O experimento testou a relação do robô-cachorro Aibo com pacientes com demência severa, e eles apresentaram melhora na comunicação. Higiene resolvida resta o problema do custo: uma versão do Aibo custa cerca de US$ 1.500. Além disso, não se sabe se os robôs são tão eficientes quanto os animais de verdade em casos que exigem outros tipos de interação com os pacientes.


Referência:
Revista Época, 21 de junho de 2004.